Aula: Guitarra

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Percebendo a Paisagem Sonora

A Percepção Musical, além de ser uma matéria no estudo de música, é que permite aperfeiçoar o ouvido, mesmo que seu objetivo não seja se tornar um músico. Se a Formação Musical, começando pela Iniciação Musical, fizesse mais uso da Percepção Musical, muitos dos mitos do ensino musical, que acabam por atrasá-lo, simplesmente deixariam de existir.

Quando se acha que é diferente do estudo de música o ato de “tocar de ouvido”, estamos diante do erro grosseiro de dar um apelido à Percepção Musical, simplesmente chamando-a de “tocar de ouvido”. O estudo da teoria, aliado ao da Percepção, torna uma formação musical quase que indestrutível. E é nessa linha que a ON&OFF vai, começando pelo princípio.

Vamos usar um trecho da composição de Joe Satriani chamada UP IN FLAMES (pode ser encontrada no CD G3 Live in Tokyo – Sony/BMG – 2005 – disco 2, faixa 1). Esse trecho, que começa a partir de 01:08, mostra como funcionam as FUNÇÕES do acompanhamento, tecnicamente estudadas como FUNÇÕES HARMÔNICAS.

Na paisagem musical, com um pouco de repetição, podemos perceber que determinados acompanhamentos giram em círculos, com uma determinada sonoridade voltando a repetir um ciclo, de quando em quando. A partir da entrada da bateria da gravação, podemos notar estes “ciclos”, onde um determinado acorde é repetido.

A Escada Musical

Para entender desde o início, observe que as tão faladas NOTAS MUSICAIS (DÓ, RÉ, MI, FÁ, SOL, LÁ e SI) formam uma ESCALA. A palavra escala vem do italiano SCALA, que pode ser traduzida por ESCADA. Uma escada com as notas musicais que todos ouvimos falar pode ser representada pela ilustração a seguir:

escada_do1

A nota DÓ, que é o nosso primeiro DEGRAU, poderia muito bem ser substituída por outra nota musical qualquer. É como se você quisesse subir 7 degraus de uma escada de muitos outros degraus. Se começar pelo degrau 1 vai até o degrau 7, mas se começar pelo degrau 2, por exemplo, vai até o degrau 8, como mostra a outra ilustração que começa pela nota RÉ:

escada_re

As “trincas” de notas

Na nossa paisagem sonora do acompanhamento de UP IN FLAMES, os DEGRAUS da escala estarão soando como ACORDES, isto é, aquelas “posições” que fazemos no braço da guitarra, reunindo combinações de cordas . Essas combinações são das notas que “melhor se entendem”, ou seja,  as que soam “bem” tocadas umas juntas com as outras.

Essas notas “combinantes” são chamadas no estudo do acompanhamento – ou da HARMONIA – de notas CONSOANTES. Perceba que quando a gente quer dizer que uma pessoa, situação ou objeto se combina com outro, usamos a palavra “harmonia”. E a palavra “consoante” por si própria parece querer nos dizer que alguma coisa soa com outra. E soa bem.

E quais seriam as notas que soam bem umas com as outras? Depende. E depende de com que nota você vai começar essa combinação. Digamos que seja com a nota DÓ. Além da própria nota DÓ, as notas que melhor soam junto com ela são MI e SOL. Por que? Deixando a Física Acústica de lado por enquanto, a resposta é simples:

As notas que melhor se combinam com o DÓ são a própria nota DÓ – o que significa que outras notas iguais, outros “DÓS” soarão bem com ela, a TERCEIRA nota depois do DÓ, que será o MI, e a QUINTA nota depois do DÓ que é SOL. Se fizermos uma “pilha” de notas a partir do DÓ, teremos algo parecido com a próxima ilustração:

triades_formacao1

Podemos chamar as notas DÓ, MI e SOL como uma “trinca” ou um trio de notas, ou ainda, na linguagem da harmonia, uma TRÍADE. Todas as notas da nossa “escada”podem gerar uma “trinca”, ou todas as notas de uma ESCALA podem gerar suas próprias TRÍADES, como estamos ilustrando a seguir:

triades_do

Formando os Acordes

Pulando alguns assuntos teóricos que veremos mais tarde (afinal nós precisamos PERCEBER o que estamos aprendendo, não é  mesmo?) aquelas famosas “posições” que aprendemos em um curso tradicional de guitarra, nada mais são do que as posições que os dedos da mão esquerda assumem para fazerem soar as notas das tríades.

Por exemplo, se você quiser fazer soar apenas as notas da tríade de DÓ, terá que transformar o som das cordas que não tem essas notas da tríade em sons das notas da tríade. Observe as notas da guitarra soltas, e como devemos apertá-las em determinados lugares para que “se transformem”, e tenhamos nas 6 cordas apenas notas DÓ, MI e SOL:

antes_depois

Da mesma forma, podemos construir as posições baseadas em todas as outras notas. O que estamos aqui chamando de “posições” na verdade são os ACORDES, conjuntos de notas que “se combinam”. Vejam como ficam os acordes formados a partir das 7 notas de nossa ESCADA, e de suas TRÍADES:

acordes

De degrau em degrau

A cada um dos “degraus” da nossa “escada” podemos também chamar pelo nome usado no estudo da harmonia, que é GRAU. O acorde formado a partir da primeira nota da ESCALA é o acorde de PRIMEIRO GRAU, e assim por diante. Cada um desses graus, cada um desses acordes, nos sugere uma impressão, como a visão de uma paisagem sonora.

Essas visões são chamadas de FUNÇÕES, como já vimos, e segundo a sua distância do primeiro GRAU, produzem as sensações de RESOLUÇÃO, AFASTAMENTO e APROXIMAÇÃO deste mesmo primeiro grau. Na nossa música, o primeiro grau é formado a partir da nota RÉ, logo, podemos representar as funções da seguinte maneira:

funcoes

A partir do ponto da gravação indicado ( 01:08 m ) os acordes vão se sucedendo de acordo com suas funções, e em uma determinada ordem. Podemos agrupar a sucessão de acordes em 12 deles. A partir do décimo-primeiro acorde, começa de novo a mesma sucessão. Podemos visualizar melhor a ordem dos acordes pela ilustração:

sequencia_bluesrock

A sequencia de blues/rock

Esta é a uma sequencia de acordes característica do BLUES, também chamada como “série de 12 compassos” do blues, que se repete indefinidamente, sendo a própria estrutura do blues. O rock, como vindo do blues, mantém essa mesma sequencia na maioria de suas composições, desde a década de 50 até hoje.

Agora, vamos ver como fica esta sequencia na tablatura e partitura para guitarra. Pensando em nos manter o mais próximo possível do Satriani, escrevemos o acompanhamento com a afinação que ele usa na gravação original, com a sexta corda afinada em RÉ. Por isso mesmo, os 3 acordes usados ficarão assim:

acordes_up

Você notou que existem LETRAS indicando os acordes. Mais uma vez, vamos passar por cima de um assunto teórico que não será necessário para tocarmos de imediato. As tablaturas e partituras começam de um ponto da gravação de antes da entrada da bateria, e estão indicadas nas duas páginas a seguir:

 partab_up_1

partab_up_2

Aguardem na próxima vez as explicações sobre o RITMO a ser usado no acompanhamento de UP IN FLAMES.