Cinema é Cultura?

O secretário estadual de Cultura do Estado de São Paulo, João Sayad, deu entrevista à esperta coluna Avant-Première, que circula na edição de final de semana do jornal Valor Econômico, rebatendo a acusação do ministro Juca Ferreira de “partidarização” de suas críticas ao projeto de lei que pretende substituir a Lei Rouanet.
Segundo o secretário, “só se for o partido da Cultura… o projeto é ingênuo e vago. Quando regulamentado, o número de problemas que podem ser criados é imenso.” Ele também apontou a ausência de critérios para definir quais projetos vão receber cotas de isenção fiscal mais elevadas, e a pressão para os empresários investirem mais:
“Num momento de crise em que todos falam em aumentar os gastos do poder público, a proposta do MinC vai na contramão do discurso de Lula, de Obama e do FMI”, sentenciou o secretário. Além de Sayad, o pessoal do cinema está querendo ainda mais dinheiro do governo, como se não bastasse a recente criação do Fundo Setorial do Audiovisual.
Nesse ponto, seria interessante considerar uma corrente de pensamento – crescente em todo o mundo – sobre o papel do cinema na sociedade, a partir da transformação da Cultura em entretenimento no pós-guerra e nos EUA, quando foi cunhado, não canso de lembrar, o termo “Fordismo Cultural”, uma industrialização das artes à moda automobilística de então.
O filósofo alemão Siegfried Kracauer, contemporâneo de Adorno e Walter Benjamin, já escrevia sobre o tema nas décadas de 20 e 30 no jornal Frankfurter Zeitung, onde era editor de cultura. Que diferença para os jornalões brasileiros, onde os “editores” têm dificuldade em escrever e falar, quem diria pensar.
Kracauer afirmava que “o lugar que uma época ocupa no processo histórico, pode ser determinado de modo muito mais pertinente a partir da análise de suas discretas manifestações de superfície, do que dos juízos da época sobre si mesma.” As discretas manifestações dos cineastas mostra sua tendência ao entretenimento, aquém da Cultura.
O filósofo colocou o cinema em seu devido lugar, “um espelho da sociedade, um refúgio para os homens saídos das fábricas e escritórios.” Ou seja, mero entretenimento, onde a apreciação de uma linguagem artística dá lugar à sublimação, projeção e outros comportamentos psicológicos, para não dizer patológicos.
Recomendar-se-ia aos nossos cineastas um retorno ao estudo das manifestações artísticas, e uma opção mais ativa na obtenção de recursos para seus projetos de entretenimento. Já estão recebendo mais do que a Música, a Dança, o Teatro, a Pintura e a Escultura, estas sim manifestações de Cultura que pedem a colaboração do cérebro. Quem sabe recorram ao FMI?
Duas sugestões para repensar leis culturais: Modernismo – O Fascínio da Heresia: de Baudelaire a Beckett e mais um pouco (Cia. Das Letras), de Peter Gay, considerando que os músicos modernistas de vanguarda continuam a ser vanguarda, e até hoje não fazem parte da corrente dominante, como ocorreu com a Pintura e a Literatura.
Ou mesmo Siegfried Kracauer, que teve vários de seus textos sobre a “cultura de massa” reunidos em O Ornamento da Massa (Cosacnaify). Os artigos têm títulos sugestivos como Aqueles que Esperam, Tédio e As Pequenas Balconistas vão ao cinema. O próprio título do livro define a telona, segundo Ismail Xavier, professor do departamento de cinema da ECA-USP:
“O ornamento de massa é uma experiência correlata à sociedade industrial capitalista, na qual tudo se organiza em torno da noção mecânica do movimento, em que a própria vida cotidiana se organiza ao redor de uma idéia de eficiência.” Quem sabe, depois das leituras, o secretário e os cineastas revejam a função do cinema, e a definição de Cultura?