Falta de Educação Musical

Posted by saulowan on 17th março 2009 in Leis Culturais

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No final da década de 80 a Folha de São Paulo publicou uma reportagem que produzi, sobre o ensino musical, a meu ver a grande lacuna responsável por um círculo vicioso que ultraja a música: público sem iniciação e educação musical gera músicos que fazem música ruim, que tocam para o público sem iniciação e educação musical, que compra e ouve má música.

Na ocasião havia poucas e raras iniciativas para iniciar crianças, conservatórios e escolas “livres” de música faziam lobby para não ser implementado um colegial técnico de música, cujo projeto jazia em alguma gaveta do CENP – Centro de Estudos e Normas Pedagógicas,  órgão que então cuidava do assunto, subordinado ao governo do Estado de São Paulo.

Havia iniciativas de ensino decente no terceiro grau, como o curso superior de Música Popular, criado e mantido pelo Departamento de Música da UNICAMP, em São Paulo, e alguma luz no fim do túnel na Universidade da Bahia e na Universidade de Brasília. O panorama de ensino nos primeiro, segundo e terceiro grau pouco mudou.

A famigerada Educação Artística continua sendo a única forma de primeiro contato das crianças com a música. Professores de Educação Artística têm – na sua imensa maioria – formação que está a anos-luz de qualquer forma de iniciação musical. Há décadas se comete um verdadeiro massacre da sensibilidade auditiva na primeira infância.

A isto se soma uma intervenção da mídia – cuja formação musical também é a pior possível – que promove artistas e bandas comerciais apelidadas de “infantis”, que simplesmente viciam os pequenos ouvidos dentro da estrutura de composição racionalista do século 18, na forma de canções com letras de má qualidade, sem falar da “adultização” precoce.

No momento em que os jovens começam a ter contato com alternativas de formação e educação musical, quase sempre fora dos bancos escolares, são pressionados a priorizar a formação escolar – cuja profundidade da qualidade bóia na superfície – e aí são atormentados com os mais do que conhecidos lugares-comuns depreciando a música.

São frases de efeito retardado, elaboradas por retardados mentais, sociais e musicais, que poderiam compor um anedotário, não fossem seriamente nocivas aos benefícios do ensino musical no combate ao déficit de atenção, hiperatividade e outros distúrbios que aqueles mesmos retardados  verão explodir, cedo ou tarde, nos seus orçamentos médicos familiares.

Criado o caldo de incultura, os aspirantes a, no mínimo ouvintes mais exigentes, e no máximo músicos mais eficientes, terão contra si a opinião familiar, não bastassem os obstáculos típicos do adolescente que chega, em bom estado, a um estado de coisas deteriorado, em uma sociedade que vê a cultura como, no mínimo uma novela, e no máximo um sambódromo.

Voltando rapidamente a Villa-Lobos, no começo da década de 30 começou sua tentativa de educar musicalmente os brasileiros, baseada em canto, já que o problema do custo dos instrumentos já se manifestava. Logo esbarrou nos mesmos problemas que agora temos pela frente, depois de aprovada a volta da música à grade escolar.

O primeiro problema era a capacitação de professores, que no tempo de Villa-Lobos eram recrutados no Conservatório Nacional, que não deu conta da demanda e a qualidade dos docentes caiu. No nosso tempo, até nos cursos superiores as especializações não são exatamente voltadas para o ensino eficiente e moderno.

O segundo problema no tempo de Villa-Lobos foi a metodologia, como fazer os iniciantes reconhecerem uma estrutura musical “congelada” em um papel, ou seja, o domínio da grafia musical.  Nos nossos dias, percebemos nos iniciantes o pavor pelo desconhecido de uma partitura, e o “congelamento” é mais eficiente didaticamente nas gravações de áudio.

O terceiro problema era, no tempo de Villa-Lobos, o seu nacionalismo, que andava de mãos dadas com o poder, com grandes concertos em datas cívicas sob o olhar do então ditador Getúlio Vargas. Hoje, já temos aprendizes de ditadores querendo interferir na volta da música para as escolas, no âmbito municipal, estadual e federal.

Estes três velhos problemas ainda não foram equacionados, apesar dos esboços de movimentos de associações de fabricantes de instrumentos, da agitação na política da Ordem dos Músicos – criada em plena ditadura dos anos 60 – e da inquietação corporativista do corpo docente de Educação Artística. O fato é que o ensino musical no país é pífio.

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