
A fabricante de equipamentos e instrumentos musicais Behringer revolucionou o mercado do ramo em 20 anos de existência. Saiu de uma garagem na Alemanha para ser uma das maiores fornecedoras de equipamentos musicais com vendas globais da ordem de 215 milhões de dólares. Seu fundador, Uli Behringer explica como montou uma fábrica na China para conseguir tudo isso.
Uli é filho de um físico nuclear e organista de igreja, que construiu o primeiro órgão eletronicamente controlado em 1966, e com o instrumento de mil tubos em casa, foi inspirado a estudar piano erudito desde os 4 anos de idade, e também engenharia de som. Comemora os 20 anos prevendo os efeitos da crise na indústria mundial do setor.
Curiosamente a Behringer é distribuída e representada no Brasil por uma empresa que também nasceu das mãos de músicos. Juliano e Everton Waldman – este último guitarrista – fundaram a Equipo em uma sala de 3 x 3 m no Bom Retiro, no começo dos anos 90 com o mesmo conhecimento musical e técnico que impulsionou o fundador da Behringer. Com a palavra Uli:
Como estudante, eu não tinha recursos para montar meu próprio estúdio de gravação. Comecei a construir equipamento primeiro para mim mesmo e mais tarde para os amigos. Imediatamente descobri que a maioria dos músicos encaram o mesmo dilema e há uma tremenda procura por equipamento bom e acessível.
Comecei minha missão pessoal e mais tarde a filosofia da empresa, de oferecer produtos profissionais a preços ao alcance de todo músico. Isso forjou o mote da Behringer “O dobro das características pela metade do preço”. Assim que o mercado percebeu isso e outros fornecedores entraram nessa, nosso lema já não valia e mudamos completamente nosso foco para o tipo, qualidade e valor agregado através da inovação.
A Behringer foi uma das primeiras empresas a fabricar na China. O que o levou à China e quais foram os primeiros desafios para fabricar lá?
UB – Como eu tinha planejado oferecer produtos profissionais a preços acessíveis, entendi que a Europa não era o lugar certo para fabricar. Sabia que os componentes de alta qualidade estavam vindo de vendedores chineses e que o custo de fabricação na China era significativamente menor. Fazia sentido colocar o processo de produção o mais próximo possível da fonte de materiais e trabalho.
Em 1990 eu voei para Hong Kong procurando por um contrato de fabricação e fiquei impressionado porque toda pergunta era respondida por “mo mantai”, ou seja, “sem problema”. Claro que logo aprendi que essas colocações tinham perna curta – havia um monte de problemas - mas isso foi o começo de uma surpreendente viagem que me manteve na Ásia por mais de 12 anos.
Começamos a trabalhar com contratos de fabricação, mas logo ficou evidente que seria impossível gerenciar um relacionamento a 10 mil milhas. Enquanto as amostras pareciam perfeitas, a gente sempre recebia containers cheios de lixo. Estou certo de que outros fabricantes tiveram experiências semelhantes.
Ao passo que outras empresas na China optaram por produzir usando diversos contratos de fabricação, você construiu sua própria fábrica. Quais são os benefícios de uma operação de fabricação verticalmente integrada?
UB – Em 1997 voltei pessoalmente a Hong Kong para ficar perto da ação. Abrimos um escritório lá para ficar ao lado das coisas e controlar os contratos de fabricação. Nos anos seguintes percebemos que era impossível gerenciar os contratos de fabricação, com qualidade e prazo de entrega sendo problemas constantes. As tentativas para melhorar os padrões só duravam o quanto durava nossa visita à fábrica.
É preciso entender que aqueles contratos de fabricação chineses tinham agendas diferentes das de seus clientes, incluindo nisso cortar arestas de componentes só para aumentar o lucro. Em 2002 finalmente decidimos estabelecer nossa fabricação na China, o que foi um outro grande marco em nossa história.
Para descrever todos os desafios que precisamos encarar na China seria preciso escrever um livro, e muitos livros foram escritos exatamente com esse tema! Se eu pudesse colocar minha experiência em uma frase, eu diria: “Se você não entende totalmente a cultura chinesa, não terá sucesso” Eu levei 20 anos para entender, respeitar e abraçar essa cultura e seu povo.
A maioria das pessoas acreditam, erradamente, que tocar a sua própria fábrica diminui os custos. A realidade é que quando você tem sua própria fábrica precisa encarar desafios nunca antes vistos. A vantagem não é diminuir custos, e sim conseguir qualidade total, controlando seu encadeamento de produção.
Fazendo este investimento na “Behringer City”, obtivemos total controle sobre todos os processos e todos compartilham seus objetivos e valores. Nós temos conduzido o nível de integração vertical ao extremo, quando, por exemplo, não apenas enrolamos as bobinas de nossos alto-falantes, mas também produzimos a polpa para a fabricação dos seus cones, tudo com o propósito de manter os mais altos padrões de qualidade.
Quais foram as habilidades de gerenciamento que você teve que aprender para fazer funcionar corretamente esse sistema complexo?
UB – Gerenciar significa gerenciar pessoas, o único recurso real que você tem. Geralmente tudo começa do topo para baixo, e o cabeça da empresa configura a visão e a cultura. Tudo na vida começa com uma visão, e se você não alinha os esforços da empresa não terá sucesso. Nossa visão é claramente construir a melhor e mais eficiente empresa com forte foco nos valores humanos.
Eu sempre emprego as pessoas que têm habilidade que eu não tenho. Costumo recrutar eu mesmo os executivos chave, às vezes abaixo do nível dos engenheiros. Minha real habilidade é escolher as pessoas hábeis com “P” maiúsculo de paixão, porque acredito que a paixão é a essência da vida.
Vemos o tempo como um dos mais preciosos recursos que temos, então gastamos uma quantidade enorme de energia para evitar gastar qualquer porção dele. Na Behringer usamos sistemas e automatização para eliminar trabalhos repetitivos, e assim damos chance para que as pessoas usem seu tempo para criar processos de valor agregado e se tornar os arquitetos do sistema.
Nos últimos dez anos colocamos uma tremenda ênfase nos sistemas integrados como o ERP – Enterprise Resource Programs – Six Sigman, Kaizen, ou fabricação magra, e Business Process Automation – tudo com o objetivo de tentar fazer os trabalhos mais rápidos, melhores e mais baratos. Nosso CEO, Michael Deeb e eu, ambos dirigimos estes processos, e não há nada mais intelectualmente estimulante do que isso.
Isso se tornou uma obsessão para nós, e sempre brincamos sobre até onde podemos automatizar uma empresa. Encorajamos as pessoas a se apropriar e conduzir os melhoramentos por si mesmas. Você cria uma cultura surpreendente na qual as pessoas progridem, constroem ferramentas inéditas, e tem como consequência resultados previsíveis que permitem recompensá-las ao mesmo tempo que o desempenho se torna mensurável.
O que a Behringer está fazendo para manter sua estratégia de produtos de alto valor, enquanto os custos na China sobem?
UB – Tivemos a vantagem de ter estabelecido nossa presença na China pelo menos uma década antes da maioria das outras empresas na nossa indústria. Já resolvemos muitas das questões que agora podem surpreender os outros. E também aproveitamos os benefícios de nossa integração vertical, controlando muito do nosso destino. A combinação de nossa experiência aliada ao aumento de custos também para a nossa concorrência, mantêm a Behringer numa posição competitiva.
Os mercados tornaram-se completamente transparentes com a maioria das empresas comprando das mesmas fontes. Desse ponto em diante, a margem competitiva vem da eficiência dentro da organização.
A China está sofrendo agora os sintomas que todos os países em desenvolvimento sentem. O aumento de salários em 20% ao ano, impostos, etc. O trabalho nos velhos tempos era tão barato que a qualidade do gerenciamento não tinha nenhuma relevância de fato, porque havia muito espaço para a falha. Isso tudo mudou, e a situação atual forçou até 50% das fábricas de Dongguan – uma área que já foi a central de fabricação da China – a fecharem suas portas. Isso junto com o fato da China declarar que as empresas governamentais não rentáveis deveriam ser vendidas ou fecharem suas portas.
Há uma clara tendência de que inúmeras empresas estão se esforçando, e prevejo quantidades maciças de outras na bancarrota nos próximos dois anos. A crise mundial de crédito vai acelerar mais ainda este processo.
Diversas empresas decidiram se mover para o interior, ou deixam a China, vão para o Vietnam, etc. atrás de custo do trabalho mais barato, mas dão de cara com uma pior base de fornecedores. A questão que precisa ser respondida é de quanto tempo levará para que estes países alcancem os mesmos níveis de salários. Temos que aceitar o fato que basicamente não há mais países de baixo custo, há pouca tolerância para o erro, e a única maneira maneira de sobreviver é maximizar eficiências. Por outro lado, você verá uma forte consolidação dos fabricantes na nossa indústria. Estamos com certeza rumando para tempos interessantes.
O uso de computadores e seus programas está transformando todas as facetas da produção do áudio e da música. O que tem para nos dizer sobre como esta tendência está afetando o desenvolvimento dos produtos da Behringer, e o que você vê como uma das grandes oportunidades de mercado chegando?
É incontestável que muitas das oportunidades para os fabricantes de hardware desapareceram no computador. Entretanto haverá sempre uma necessidade para o fanático por hardware fazer a interface entre o mundo exterior e o computador, assim como uma necessidade de controle táctil sobre os processos de produção da música. A Behringer oferece muitos produtos em ambas as categorias, e continuará a desenvolver mais, e melhorar.